Educação, Segurança Pública e Saúde. Esses foram os temas debatidos no terceiro e último encontro Rio de Futuro, realizado pela Firjan em parceria inédita com o Grupo Bandeirantes. O evento ocorreu na quinta-feira (2/7), na Casa Firjan, hub de inovação e tendências da federação, e contou com especialistas dos mais diversos setores para apontar os desafios e gargalos do estado do Rio de Janeiro. Os apontamentos serão compilados em um documento a ser entregue aos candidatos ao governo estadual durante o primeiro debate eleitoral, que será promovido pela Band, em 9/8.
Representando o presidente Luiz Césio Caetano, o 1º vice-presidente da Firjan, Carlos Erane de Aguiar, deu boas-vindas aos palestrantes, lideranças empresariais, representantes da sociedade civil, autoridades públicas e imprensa. Apresentando dados do estudo Rio de Futuro – vocações e potencialidades econômicas do Estado do Rio de Janeiro, da Firjan, o empresário enfatizou a relevância da série de encontros a fim de promover debates qualificados sobre os principais desafios estruturais do estado.
“Estamos reunidos para discutir soluções concretas e consolidar propostas. Especialistas debateram temas sensíveis e com grandes desafios para o futuro governante, como o combate à insegurança que assola o nosso estado. Em pesquisa promovida pela Firjan, dois a cada três empresários declararam que as decisões de investimentos no Rio são afetadas pelas condições de segurança”, disse.
Carlos Erane de Aguiar também citou outro estudo elaborado pela Firjan, o Custo Rio, que revelou um custo adicional aos empresários estimado em R$ 274 bilhões por ano, equivalente a 20% do PIB fluminense.
“São custos decorrentes de juros elevados, perda de eficiência logística, insegurança regulatória, redução da capacidade de investimentos, entre outros entraves ao desenvolvimento do Rio de Janeiro. E a falta ou a fuga de investimentos afeta diretamente a arrecadação estadual e, consequentemente, os recursos para serem investidos tanto na Educação quanto na Saúde e demais áreas públicas”, enfatizou.
Mediador dos painéis, o jornalista Rodolfo Schneider, diretor-geral de Conteúdo do Grupo Bandeirantes, pontuou a importância dos encontros como posicionamento ativo das entidades organizadoras do evento. “O Rio tem todos os seus potenciais, mas precisa de um projeto. Para vocês terem ideia, a BandNews TV entrevistou um pré-candidato, e algumas perguntas colocadas já foram perguntas feitas pela nossa equipe em cima dos debates que realizamos aqui, como, por exemplo, o de mobilidade sobre extensão de metrô”, disse Schneider.
Educação
O primeiro painel abordou o cenário da Educação no Rio e começou com Cláudia Costin, presidente-executiva do Instituto Salto, apresentando dados nada animadores: o estado amarga o penúltimo lugar no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), de 2023, no Ensino Médio, com nota de 3,3 – lideram o ranking Paraná, Goiás e Ceará.
Cláudia enfatizou que o resultado é um paradoxo, pois o estado possui o segundo maior PIB do país e o maior gasto por aluno do Brasil, cerca de R$ 20 mil anuais, valor 83% mais alto do que o de Goiás, que ocupa o topo da tabela do Ideb e aplica R$ 10.704. Além disso, frisou que a média de alfabetização ao final do segundo ano é de apenas 60%, abaixo da média nacional.
Para reverter o quadro, Cláudia Costin, que foi secretária municipal de Educação da cidade do Rio de Janeiro entre 2009 e 2014, defendeu a urgência da implementação do tempo integral nas escolas. Segundo ela, diante do avanço da inteligência artificial, o modelo tradicional com 13 matérias “espremidas” em 4 horas não funciona mais.
“O Rio precisa colocar a aprendizagem de todos no centro. Avançar muito mais rápido em direção ao tempo integral. E não é baixar a régua para os que estão mais vulneráveis. É dar os suportes adicionais para quem precisa. Nas escolas da Europa e dos Estados Unidos, a carga horária é de 7 horas, em média, e nas da Ásia, de 9 horas. Precisamos de um modelo integral significativo que não seja feito só de aulas, mas de um pouquinho de oficinas, aulas mais discutidas, educação mais mão na massa, que ensine a pensar”, apontou, sugerindo que um dos caminhos é copiar os exemplos do Ceará e de Pernambuco.
Carla Jucá, diretora-executiva do movimento EducAção Rio, também alertou para os dados do Ideb, enfatizando que a Baixada Fluminense vive uma situação mais crítica, em que nem 40% das crianças são alfabetizadas na idade certa. Para o desenho do futuro, ela chamou a atenção para que haja foco no aluno, com reformulação do formato de ensino, e acrescentou:
“A escola precisa ser um lugar para onde as nossas crianças e os nossos jovens queiram ir. Não adianta estender a carga horária se eles já não gostam de ir para a aula hoje em dia. É preciso evitar o aumento da evasão escolar, como também corrigir distorções, como mostram os números: 60% dos alunos chegam ao Ensino Médio com nível insuficiente em Língua Portuguesa, e 80%, em Matemática”, disse, defendendo que a mudança impacte também a escolha de secretários e equipes regionais por critérios estritamente técnicos.
As observações das companheiras de painel foram endossadas por Vinícius Mano, gerente de Educação Básica da Firjan SESI. Ele destacou que as escolas da instituição atuam com olhar centrado no futuro dos alunos. Conforme disse Mano, é trabalhar entendendo que o aluno precisa se desenvolver do ponto de vista acadêmico, da formação para o mundo do trabalho, cultural, das experiências de vida, e estar preparado para o mercado.
"As Escolas Firjan SESI trabalham com o Ensino Médio de forma articulada à Educação Profissional desde 2010, e atualmente alcançam uma parcela da população similar àquela alcançada pelas escolas públicas. Estamos observando resultados muito interessantes, a partir dessa proposta de educação integral, que amplia o tempo de permanência dos estudantes na escola aliando Educação Básica à Formação Profissional, incorporando atividades diversificadas como robótica, iniciação científica, maker, arte e cultura, esporte, cinema, literatura, promovendo o desenvolvimento integral e estimulando a criatividade e a inovação. Para a maioria dos nossos estudantes, esta é a única oportunidade de desenvolvimento pessoal, acadêmico e profissional. Para a indústria e para a sociedade, este caminho é uma oportuniade ímpar de construir um futuro mais inovador, competitivo e justo", disse.
Confira a íntegra do painel sobre educação:
Segurança Pública
Compuseram o segundo painel Rodrigo Pimentel, ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), da Polícia Militar do Rio; Bárbara Caballero, diretora-presidente do Instituto de Segurança Pública (ISP), autarquia vinculada diretamente à Secretaria de Estado de Segurança Pública; e Fabrício Oliveira, delegado da Coordenadoria de Recursos Especiais da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro (Core/PCERJ).
Ao analisar os desafios estruturais da segurança pública no estado, Bárbara alertou que as estatísticas criminais tradicionais de delegacia são insuficientes, pois não refletem fielmente a realidade devido à subnotificação em áreas controladas por facções e milícias, onde os moradores são cerceados do direito de denunciar. Diante disso, a gestora apontou como principal fator estratégico a centralidade do atendimento ao território, criticando a aplicação de planejamentos genéricos para favelas e complexos com dinâmicas totalmente distintas. Na sua avaliação, o caminho regulatório e operacional exige adaptações das políticas à nova realidade, integrando o ISP às guardas municipais para criar uma cultura de dados compartilhada.
No âmbito do combate à violência de gênero, Bárbara mostrou dados do Dossiê Mulher, revelando um aumento de 1.300% nos registros de violência psicológica na internet entre 2015 e 2025. Embora o Estado tenha expandido a sua rede de acolhimento e registro de denúncias nas últimas duas décadas, ela disse que isso não resolve o problema, funcionando apenas depois que a agressão já ocorreu. Bárbara defendeu ir à raiz do problema, o que demanda o enfrentamento direto a uma sociedade machista e misógina para desnaturalizar e criminalizar as microagressões diárias que legitimam e alimentam o ciclo da violência até o seu topo trágico, o feminicídio.
Fabrício, por sua vez, ao analisar os desafios operacionais e tecnológicos da segurança pública, destacou o avanço preocupante do crime organizado, que expandiu suas cifras nos últimos anos ao migrar da venda de drogas para a exploração econômica de territórios por meio de extorsões. O especialista chamou a atenção para a urgência de dotar as polícias de ferramentas de ponta, alertando que os criminosos já utilizam drones em larga escala, enquanto o Rio carece de tecnologias básicas, como bloqueadores de frequência (jammers) para evitar a queda de comunicação em operações.
O delegado propôs ainda uma mudança estratégica fundamental no campo regulatório: a simplificação da lei de licitações para unidades de inteligência, permitindo que o poder público adquira equipamentos de forma ágil, antes que a tecnologia pretendida se torne obsoleta durante a burocracia do processo.
No campo institucional, o policial civil pontuou que o sucesso dos resultados na segurança pública vai depender da blindagem das corporações de interferências políticas e, principalmente, de narrativas ideológicas. Para ele, as pautas da segurança pública precisam ser tratadas com rigor científico e estar intrinsecamente conectadas às demais áreas do governo, como a educação, estabelecendo um plano de Estado de longo prazo que garanta a tranquilidade social e o desenvolvimento futuro do Rio de Janeiro.
A recuperação física territorial das comunidades no Rio, para Rodrigo Pimentel, é fundamental: “Como é que a gente quer que a escola seja um espaço onde o aluno passe o dia inteiro, onde ele tenha boas oportunidades de se desenvolver tanto academicamente quanto profissionalmente e culturalmente, se a gente não consegue garantir que ele chegue à escola e tenha um dia tranquilo de desenvolvimento? Que o professor chegue à escola e tenha um dia tranquilo de trabalho para poder desenvolver os alunos?”, exemplificou.
Ele também questionou se o problema em relação à segurança pública no estado fluminense é somente fruto do crescimento e da atuação das facções criminosas: “Será que o grande problema do Rio de Janeiro, de fato, verdadeiramente, não é a lei? Talvez seja. Talvez seja esse o grande problema. A facção é um grande problema; o domínio territorial é uma verdade. Mas a nossa classe política certamente é a pior do Brasil. Então, eu tenho esperança a médio prazo. A curto prazo eu não tenho nenhuma. É realista a minha visão”.
Saúde
O setor da Saúde também apresenta muitos desafios, conforme os três painelistas apontaram em suas apresentações. A médica pneumologista Margareth Dalcolmo, pesquisadora da Fiocruz e membro titular da Academia Nacional de Medicina, ressaltou o paradoxo de o Rio de Janeiro possuir o maior complexo hospitalar e de pesquisa federal do país – como Fiocruz, Inca e Into –, e ser alvo de uma desarticulação crônica por causa da falta de interlocução e apoio político.
“Acho que o Rio é um celeiro. Não só de conhecimento, mas de infraestrutura que, se fosse bem administrada, sem dúvida nenhuma, poderia resgatar o fato de ter sido capital do Império e capital da República, e ser um exemplo para todo o Brasil”, disse.
No entendimento da médica, é urgente blindar o setor contra ingerências partidárias, exigindo uma governança estritamente técnica. Ela disse que a saúde não pode continuar a ser utilizada como “moeda de troca política” para a composição de maiorias no Legislativo, apontando que a indicação de diretores de hospitais, hoje, se dá por critérios políticos. Margareth defende que a Saúde seja tratada como política de desenvolvimento econômico, focada na produção local de vacinas e fármacos, uma vez que possui a capacidade de fixar cientistas no estado, gerar empregos de alta qualificação e criar um ambiente de negócios favorável para o futuro do Rio de Janeiro.
O médico infectologista Alberto Chebabo, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), falou sobre a estrutura orçamentária da saúde pública no Rio. Ele rebateu a tese de que o setor sofre com a escassez de recursos, afirmando que há verba, mas que ela é destinada de forma ineficiente.
Diante desse cenário, Chebabo defendeu que o fortalecimento de parcerias público-privadas (PPPs), como as implementadas com sucesso pela Firjan e pelo próprio Hospital Universitário da UFRJ durante a pandemia, é um caminho estratégico para otimizar os leitos e a infraestrutura hospitalar remanescente. Outro ponto levantado pelo infectologista foi o aumento expressivo das ocorrências de traumatismos, principalmente em decorrência de acidentes com motocicletas e bicicletas, em muitas situações, em casos de alta complexidade.
“O Rio de Janeiro é obrigado a abrir mais leitos ortopédicos do que para qualquer outra especialidade, o que causa uma sobrecarga impulsionada diretamente por uma epidemia de acidentes automobilísticos e de motocicletas na capital. Essa demanda por ortopedia e traumatologia sufoca as emergências e as enfermarias clínicas, retirando espaço físico e orçamentário que deveria estar destinado ao tratamento de pacientes infartados, crônicos ou oncológicos”, disse.
Como solução para mitigar o colapso e as extensas filas de regulação, ele propôs que a alta complexidade seja reorganizada de forma integrada e articulada entre os grandes hospitais federais e universitários, com uma descentralização eficiente que desafogue a rede e restabeleça o fluxo assistencial do estado.
Fernanda Freire Tovar-Moll, presidente do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino (Idor), instituição sem fins lucrativos focada em inovação, educação e pesquisas científicas na área da Saúde da Rede D'Or, em concordância com Alberto Chebabo, acredita na eficiência das parcerias público-privadas. Inclusive, destacou a iniciativa “Agora Tem Especialistas”, do Ministério da Saúde e do governo federal. Para ela, essa política cumpre a função de incentivar parcerias que ampliam o acesso a exames e tratamentos de alta complexidade e a procedimentos cirúrgicos minuciosos, como as cirurgias cardíacas pediátricas.
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