Em mais uma iniciativa para fortalecer a indústria nacional que pode atender o mercado de gás, petróleo e naval do país, a Firjan promoveu, na terça-feira (4/8), o Seminário Agrega + Indústria. O tema central foi a ampliação da participação da indústria local, condições e requisitos para o Conteúdo Local, reunindo no auditório da Federação, no Centro do Rio, empresários, representantes do governo e órgãos reguladores para debater o assunto.
O presidente da Firjan, Luiz Césio Caetano, enfatizou que o seminário é mais uma iniciativa da federação de trazer luz sobre as necessidades de se criar as condições para que o Conteúdo Local seja realizado, para uma indústria local competitiva e sustentável ao longo do tempo, agregando valor à sua produção. A mobilização das partes - governo, operadoras, contratadas e indústria; trouxe a visão de cada uma e de como somadas podem gerar um resultado mais positivo que o alcançado hoje.
O Rio de Janeiro produz cada vez mais petróleo e gás, disse o presidente no início de sua fala. Em junho de 2026, o Brasil produziu 5,842 milhões de barris de óleo equivalente por dia (boe/d) segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP). Com relação ao petróleo, um aumento de 4% na comparação com o mês anterior e 19,1% em relação ao mesmo mês de 2025. Na produção de gás natural crescimento de 5,5% frente a maio e de 19,7% na comparação com junho de 2025.
Em contraponto, Caetano alertou para a baixa utilização da capacidade industrial e para os maiores desafios do mercado, destacando a elevada tributação, o alto custo e a dificuldade de acesso ao crédito; citou a necessidade de investimentos em segurança privada, os custos de energia e insumos, a logística precária e outros fatores que colocam o país em desvantagem frente a outras economias.
Estratégias para o Conteúdo Local
Diante desses obstáculos, Caetano ressaltou que, para um Conteúdo Local competitivo, é preciso observar o cenário da indústria, ouvir o Estado brasileiro, mas também quem define, quem especifica, quem licita e compra, e quem executa e entrega. “O futuro que estamos construindo precisa de cada vez mais indústria nacional, de mais emprego e mais renda. Não acompanhar a crescente produção de petróleo e gás do país é perder, dia após dia, uma oportunidade que não retorna, que não vai mais ser transformada em emprego novo, que não vai inserir mais profissionais no mercado, ou que não vai promover mais desenvolvimento na indústria”, disse.
Marta Franco Lahtermaher, diretora-geral da Organização Nacional da Indústria do Petróleo (ONIP), ressaltou que o Conteúdo Local não é só mais um percentual a ser atingido, mas sim parte de um contexto de política pública e industrial. Na mesma linha, o presidente do Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval), Ariovaldo Rocha, reforçou que a prática é adotada internacionalmente e deve se consolidar como uma política de Estado.
O protagonismo no mercado de óleo e gás foi enfatizado por José Velloso Dias Cardoso, presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (ABIMAQ). Como exemplo, ele citou a Noruega, potência energética global que financia o maior fundo soberano do mundo com a extração de petróleo e gás no Mar do Norte e é dona de um mercado interno focado em energia limpa.
Symone Araújo, diretora da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), destacou o crescimento esperado da produção e a integração entre Conteúdo Local, PD&I e novos projetos. Já Rodrigo Zerbone, secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), enfatizou que esta prática deve atuar como instrumento de política industrial e soberania, embora tenha ressalvado que os juros elevados no país ainda dificultam esses investimentos.
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| Seminário reuniu agentes públicos, entidades e indústria do mercado de óleo e gás |
A visão da operadora
Pela Petrobras, esteve presente Renata Baruzzi, diretora de Engenharia, Tecnologia e Inovação da empresa, que trouxe números e exemplos para reforçar que há uma grande oportunidade para fortalecer uma cadeia fornecedora nacional que seja competitiva internacionalmente, como o que já ocorre no segmento subsea.
“A Petrobras, responsável por cerca de 5% dos investimentos do país, tem papel central no desenvolvimento industrial, tecnológico e energético do Brasil. O caminho é alocar o risco no lugar correto para a construção de um Conteúdo Local que seja naturalmente competitivo”, afirmou.
Ações no dia a dia
No painel “Conteúdo Local na prática”, a gerente-geral de Petróleo, Gás, Energias e Naval da Firjan, Karine Fragoso, afirmou que todos os agentes participantes do seminário buscam o mesmo objetivo: querem o Conteúdo Local. No entanto, ela destacou que as condições de país estão em desalinho com o regramento atual que se perde na execução do que foi contratado e se afasta do propósito estabelecido. “A indústria nacional tem capacidade para fornecer até o dobro do Conteúdo Local atualmente previsto em alguns cenários. Ela precisa das condições corretas para isso”, sublinhou.
O painel também contou com a participação de José Velloso Dias Cardoso, da ABIMAQ; do vice-presidente do Sinaval, Maurício Almeida; Marta Franco Lahtermaher, da ONIP; com a moderação do presidente da ABEEMar, João Azeredo.
Durante o debate, Karine Fragoso apresentou reflexões sobre como aproximar o Conteúdo Local solicitado do executado, reduzir riscos para contratantes, ampliar condições para fornecedores e neutralizar as assimetrias de competitividade. Segundo ela, para melhorar a execução do CL no país, a Firjan apresentou três propostas: uma agenda recorrente de acompanhamento, condicionantes de isonomia ao longo dos contratos e bônus de Conteúdo Local nas licitações de plataformas.
Diálogo regulatório e políticas públicas
Já o presidente do conselho deliberativo da ONIP, Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira, defendeu a continuidade da agenda de Conteúdo Local e o desenvolvimento da produção nacional.
O debate sobre diretrizes públicas reuniu Gustavo Tinoco, superintendente de Conteúdo Local da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Carlos Agenor Onofre Cabral, diretor do Departamento de Política de Exploração e Produção de Petróleo do Ministério de Minas e Energia (MME), e Alexandre Carlos Leite de Figueiredo, secretário da Secretaria de Controle Externo de Energia e Comunicações (SecexEnergia) do Tribunal de Contas da União (TCU). Os painelistas defenderam o fortalecimento do diálogo regulatório e ressaltaram a urgência de ampliar a exploração e produção (E&P) para garantir a segurança energética do país, incorporando maior índice de Conteúdo Local nos futuros projetos. Além disso, destacaram a importância de integrar as compras com PD&I, inovação e indicadores com foco em atividades de maior valor agregado para desenvolver fornecedores nacionais competitivos.
O conteúdo local competitivo
O início da tarde reuniu três diferentes ângulos sobre a temática. Ramon Machado, gerente de Conteúdo Local da ABS discutiu a ótica do certificador de conteúdo local. Já André Carvalho, sócio da Veirano Advogados falou sobre a prática do Repetro ao longo do tempo, e Pedro Ivo, secretário de Competitvidade e Política Regulatória do MDIC, apresentou medidas pela redução do Custo Brasil.
Desafios e soluções
Durante a tarde, especialistas se reuniram no painel "O Conteúdo Local no FPSO" para analisar o cenário das unidades flutuantes de produção, armazenamento e transferência de petróleo e gás. Na ocasião, Alessandro Zunino, vice-presidente comercial sênior da Yinson, destacou os elevados índices de Conteúdo Local nos três FPSOs da empresa e afirmou que, embora o Brasil possua capacidade industrial, o setor precisa de maior previsibilidade nas contratações e apoio de políticas públicas.
Timote Braga, gerente de Conteúdo Local da SBM Offshore, ressaltou os investimentos da companhia em fornecedores brasileiros, apontando a participação nacional nas etapas de engenharia, suprimentos, construção e comissionamento de projetos.
Bruno Búrigo, vice-presidente Comercial e de Desenvolvimento de Negócios da Seatrium no Brasil, apresentou a atuação dos estaleiros nacionais na fabricação e integração de módulos, com ênfase na geração de empregos e no cumprimento das metas regulatórias.
Marcus Cirio, diretor de Construção e Estaleiros da Hanwha Ocean Brasil, defendeu a retomada da integração dos FPSOs no país como medida essencial para ampliar os serviços, empregos e fornecimentos locais, reduzidos desde 2015.