
Alexandre Aguieiras (Alvarez e Marsal Performance) e Julio Talon (Firjan)Foto: Marcelo Martins/Firjan
O Conselho Empresarial de Economia da Firjan recebeu, nesta quinta-feira (10/9), o sócio da consultoria americana Alvarez e Marsal Performance, Alexandre Aguieiras. O especialista apresentou uma análise da situação do varejo no país e o impacto da crise na indústria e no setor produtivo. Durante a reunião, os conselheiros tiraram dúvidas sobre temas como a alta taxa de juros, a forte presença de produtos importados no mercado nacional e o fim da escala 6x1.
O presidente do Conselho, Julio Talon, demonstrou preocupação com o cenário atual, reafirmando a importância do encontro. Talon, que também é executivo da GE Aviation, ressaltou ainda que muitos dos problemas que afligem a indústria e o mercado são resultado de um complexo contexto macroeconômico, por isso, é fundamental buscar análises embasadas de especialistas.
“O ambiente atual é altamente desafiador para o varejo e, por consequência, para a indústria. Fatores como o alto endividamento das famílias e a incidência de recuperações judiciais impactam, sobretudo, as pequenas e médias empresas, principais fornecedoras de manufaturados e prestadoras de serviços para as grandes redes”, observou Talon.
O sócio da consultoria americana Alvarez e Marsal Performance apresentou um estudo com dados de 40 grandes companhias do setor varejista que fornecem para o Brasil e afirmou que uma das conclusões da análise é que as mudanças no país ocorridas nos últimos cinco anos impactaram o comportamento do consumidor e afetaram diretamente o mercado. A disponibilidade de mercadorias importadas e de valor mais baixo e o alto endividamento de parte da população, devido às bets, são alguns dos fatores que ajudam a explicar o contexto de hoje.
Alexandre Aguieiras explicou que, há cinco anos, as empresas do setor destinavam cerca de 16% do lucro operacional para cobrir suas despesas financeiras. Hoje, este índice subiu para 45%, o que significa que praticamente metade de todo o lucro gerado pela operação é consumido no pagamento de juros e encargos financeiros.
“Quando você olha para a despesa em si, ela praticamente dobrou: saltou de R$ 10,9 bilhões para R$ 23 bilhões. Mas o grande xis da questão é a fatia do lucro operacional necessária para cobri-la, que triplicou de 16% para 45%. O empresário precisa comprometer uma parcela cada vez maior do resultado porque o lucro operacional dessas companhias simplesmente não acompanhou o crescimento das dívidas”, pontuou.
A pandemia também deixou suas marcas no varejo. O consultor ressaltou que, após esse período, as empresas contraíram mais dívidas para expandir e aumentar estoques em um momento de juros baixos e elevado otimismo. Mas na sequência veio uma rápida alta da taxa Selic — que saltou de 2%, em 2020, para os atuais 14% —, contribuindo para a elevação das despesas financeiras. Esse movimento teria reduzido a margem para novos aportes e elevado a exigência para a aprovação de investimentos, fazendo com que a fatia do lucro destinada ao reinvestimento caísse de 34% para 27%.
“Quando a despesa financeira aumenta, é preciso destinar mais do lucro operacional para pagar dívidas e sobra menos disponibilidade para reinvestir. Com a alta dos juros, a barra de decisão para novos aportes ficou muito mais alta”, explicou o consultor.