As comemorações do Dia da Indústria, celebrado em evento da Firjan, nesta segunda-feira (25/5), também contaram com momentos de troca de ideias em prol do fortalecimento da indústria fluminense. Especialistas renomados de diferentes áreas de conhecimento e setores industriais participaram de painéis comandados pela empresária Isadora Remy, 1ª vice-presidente da Firjan CIRJ. Eles analisaram as potencialidades de infraestrutura do estado, debateram o cenário atual, falaram sobre investimentos e apontaram caminhos que possam garantir, com segurança e usando tecnologia, o fortalecimento industrial do Estado e, consequentemente, impulsionar a competitividade das indústrias.
Para Isadora, os painéis, por meio de troca de ideias e acesso a conhecimentos, representam a função da federação. “Tivemos aqui especialistas, e isso comprova a referência que é a Firjan. E eles falaram em um evento na nossa casa e no Dia da Indústria”, celebrou.
"O Rio que queremos construir se faz com diálogo e união de forças. É uma honra debater esses caminhos econômicos e de infraestrutura ao lado de empresários e executivos com bagagem e experiência de mercado", afirmou Luiz Césio Caetano, presidente da federação.
Diante de diversos temas fundamentais para a indústria fluminense, Isadora Remy começou o bate-papo questionando Roberto Sallouti, CEO do BTG Pactual, sobre qual seria sua mensagem para o empresariado que pretende expandir operações no Rio de Janeiro. Para o executivo, o estado oferece um ambiente robusto e repleto de frentes de crescimento. Ele ressaltou que é preciso estar atento para capturar essas oportunidades, citando como exemplo a iniciativa do banco de adquirir a estrutura da antiga Vila dos Atletas, construída para os Jogos Olímpicos de 2016. Após passar por uma revitalização, o complexo se transformou no Ilha Pura, um bairro planejado na Barra da Tijuca, zona sudoeste da capital.
“Toda vez que eu passava por lá e via aquele elefante branco deteriorando, eu falava: 'Não é possível. Como é que a gente vai deixar que o legado seja esse monte de edifícios lindos que vão ficar deteriorados? Aí começamos a estudar o problema. Era um tema de negociação que, por entraves legais, estava travado. Então, apareceu a oportunidade de nós comprarmos essa dívida. Fizemos o aporte necessário para finalizar o empreendimento e revitalizou-se uma área fantástica”, recordou.
Sallouti também falou sobre o volume de transações privadas no mercado de capitais. Ele frisou que é preciso estímulos por parte dos investidores e que o BTG apoia as empresas para emitir debêntures e FICs para fazer operações que cabem naquele produto, ressaltando que é fundamental ter visão da volatilidade do mercado.
“Nos diferentes ciclos de mercado, a melhor oferta varia. Um ano atrás, para uma empresa que tivesse tamanho e condições de acessar o mercado de capitais, aquela, sem dúvida, era a opção mais competitiva e nós estávamos lá para ajudá-la. No cenário atual, em que vemos o mercado de capitais fechado, temos o balanço do banco à disposição das empresas. Entendemos que existem esses ciclos, e o importante é que os empresários tenham acesso aos fundos”, explicou, acrescentando que o grande desafio no custo de capital é o fato de ele ser determinado pela taxa Selic.
Concessões e segurança jurídica
O cenário de concessões e investimentos em infraestrutura no Rio de Janeiro foi abordado por Julio Amorim, diretor-superintendente da Ecovias Rio Minas e da Ecovias Ponte, ambas do Grupo EcoRodovias. Na sua visão, o estado fluminense passa por um amadurecimento regulatório fundamental, no qual as regras do jogo se tornaram mais previsíveis para atrair o capital privado de longo prazo. Ele inclusive frisou que o planejamento empresarial começa muito antes de os editais de concessão irem ao mercado.
Para ele, as modelagens de contratos e projetos evoluíram muito no que tange à questão regulatória, apresentando matrizes de risco bem mais claras e garantindo segurança jurídica. “Não é à toa que vemos um momento de expansão de concessões, o que contrasta positivamente com as primeiras experiências no país, na década de 1990, quando os contratos exigiam premissas de altíssimo risco e menor cooperação para prazos de 20 a 30 anos. Atualmente, o compartilhamento de riscos diante de imprevistos globais, como a pandemia e a oscilação nos custos do petróleo, reflete um governo que atua de forma mais colaborativa para evitar o afastamento de investimentos”, pontuou Julio.
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O executivo também citou a taxa Selic para ressaltar que o atual patamar dos juros ainda impacta fortemente o custo de capital. Ele acrescentou que, somadas à burocracia e ao cenário macroeconômico, existem barreiras locais de percepção de risco e operação — especialmente no Rio de Janeiro, onde há desafios persistentes relacionados à segurança pública e à mobilidade urbana.
“Contudo, mesmo diante de desconfianças externas iniciais sobre a complexidade do estado, o investidor estrangeiro percebe o Brasil como um país próspero e, ao se estabelecer na região, consolida sua permanência, viabilizando grandes projetos estruturais como o corredor da Rio-Minas”, ressaltou.
Simplificação tributária
No campo macroeconômico, a análise das diretrizes estruturais para o fortalecimento produtivo foi abordada pelo renomado economista Samuel de Abreu Pessôa, doutor pela USP, professor e pesquisador da FGV. Ele destacou que a simplificação tributária é o principal motor de longo prazo para destravar o crescimento e atrair novos investimentos. A análise apontou que as modificações na incidência de impostos sobre o consumo são fundamentais para o avanço das forças produtivas. O economista qualificou o avanço regulatório como a medida estruturante mais importante desde o Plano Real. “A nova padronização reduzirá o elevado nível de litigiosidade nacional, mitigará o complexo custo de conformidade jurídica e corrigirá regras obsoletas que historicamente estimulam a alocação de recursos privados”, projetou.
O pesquisador defendeu a consolidação de regras institucionais rígidas que permitam que as despesas avancem no mesmo compasso da atividade econômica nacional. “Sempre digo que nós temos que ter instituições que permitam regras. E, quando eu falo de instituição, sou bem claro: programas sociais, critérios de elegibilidade a eles e regras de elevação do valor do benefício desses programas sociais, que permitam que o gasto público cresça na mesma velocidade do PIB”, sinalizou.
As experiências e os conhecimentos no âmbito industrial de José Guilherme Souza, sócio e Head de Infraestrutura da Da Vinci Compass, também contribuíram para uma conversa produtiva aos presentes no auditório da Firjan, no Dia da Indústria. Isadora perguntou ao convidado se o Estado do Rio pode ser determinante para melhorar as condições de spread, como também atrair novos fundos de infraestrutura de longo prazo no Rio.
Na avaliação de José Guilherme, diante do atual contexto, a grande maioria dos estados brasileiros (e o Rio de Janeiro não é exceção) está no limite ou acima dele na área fiscal. Para ele, a decisão de alocação de capital dos governos vai pender para os gastos sociais; e, nesse cenário, o cobertor é curto. “Faltará recurso para investir nas infraestruturas necessárias para o bom funcionamento das economias. É natural, porque o Estado, os municípios e o governo federal não têm recursos de orçamento para investir; canalizam para outras prioridades. Mudar isso só é possível com o avanço das modelagens, da segurança regulatória e jurídica, e com um grande trabalho de atração desse capital para esse tipo de projeto”, contextualizou.
Souza ainda acrescentou que alguns projetos são estruturados sob a forma de concessão comum, que são aqueles economicamente mais viáveis, nos quais quem paga pelo serviço essencial é o usuário. “Outros projetos não têm viabilidade econômica apenas com o pagamento do usuário; então, existe a necessidade de uma contrapartida do poder público. Essas são as parcerias público-privadas”, finalizou.
Ao final, o presidente Luiz Césio Caetano destacou que a Firjan está atuando intensamente por um futuro mais próspero para o estado do Rio como um todo e para cada indústria aqui instalada. "Tivemos um debate de altíssimo nível, que nos ofereceu uma rica visão dos atrativos para investir e dos caminhos para o desenvolvimento do Estado do Rio".