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Infraestrutura / Economia do Rio

Especialistas abordam impactos do El Niño na indústria fluminense em reunião do Conselho ESG

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Publicado em 31/08/2026 14:58  -  Atualizado em  31/08/2026 15:19

Na sexta-feira (28/8), o Conselho Empresarial ESG da Firjan promoveu uma reunião online extraordinária com foco nos riscos de eventos climáticos para a indústria do estado do Rio de Janeiro. Conduzido por Claudia Guimarães, presidente do Conselho, o encontro buscou ampliar o debate sobre os possíveis impactos do El Niño na infraestrutura e na economia fluminense, diante do aumento da frequência e da intensidade de fenômenos extremos.

Para detalhar o panorama meteorológico e as ações preventivas, a reunião contou com a participação de Melquizedek Rafael Duarte da Silva, meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), e do tenente-coronel bombeiro militar Gil Kempers, assessor-chefe de redução de risco de desastres e eventos extremos da Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade (SEAS).

Conforme Claudia destacou, a discussão sobre o fenômeno ganha relevância pelos efeitos diretos causados por chuvas intensas, ventos, inundações, deslizamentos, ondas de calor e estiagem sobre a atividade econômica, como vem ocorrendo em todo o mundo. Ela enfatizou a importância da atuação coordenada dos diferentes níveis de governo, instituições e do setor produtivo.

“É preciso se antecipar sobre como essas mudanças climáticas comprometem as operações industriais, logística, de energia, abastecimento e mobilidade e fazem um efeito cascata na economia. É muito importante falar de prevenção, planejamento, sistema de alerta, protocolo de resposta, investimentos em infraestrutura resiliente e buscar reduzir e mitigar possíveis impactos econômicos e sociais. A Firjan reforça o seu papel estratégico na construção dessa agenda de desenvolvimento econômico”, destacou

O especialista do INMET disse que as temperaturas na região do Pacífico Equatorial mantêm-se aquecidas e acima de 0,5 °C. Em análise recente, segundo explicou, o índice atingiu 1,8 °C acima da média histórica. Melquizedek ressaltou que o cenário atual vai além de uma anomalia isolada no Pacífico:

“Não é só um aquecimento na região do Niño, mas o oceano como um todo está bem aquecido. De acordo com os dados apresentados, as águas dos oceanos Atlântico e Índico também registram temperaturas elevadas”, explicou.

Melquizedek sinalizou que há probabilidade próxima a 70% de o atual evento figurar entre os mais intensos já registrados. Há mais de 90% de chance de manutenção de um El Niño de intensidade forte, com aquecimento acima de 2 °C, durante o trimestre de primavera e o início do verão deste ano.

Sobre a duração e o tempo de resposta do clima, o especialista alertou para a existência de um delay entre o aquecimento oceânico e as reações atmosféricas continentais. Ele apresentou um mapeamento com projeções sobre impactos para o Brasil e para o estado do Rio de Janeiro. Segundo explicou, nas Regiões Norte e Nordeste, a expectativa é de precipitações abaixo da média histórica e temperaturas acima da média. Já na Região Sul do País, a previsão é de chuva acima da média histórica.

“No Estado do Rio de Janeiro, a temperatura deve ser de até 1 °C acima da média nos três meses analisados. Em relação às chuvas, o trimestre apresenta alternância mensal: setembro com indicativo de chuvas acima da média, outubro próximo da normalidade e novembro com probabilidade de chuvas abaixo da média”, informou.

Mapeamento de riscos, governança e impactos na cadeia produtiva

O tenente-coronel BM Gil Kempers abordou a gestão de riscos e a necessidade de articulação entre o setor público e a indústria. Ele contextualizou a vulnerabilidade do território fluminense, ressaltando que 83% dos municípios do estado do Rio de Janeiro apresentam alta suscetibilidade a chuvas intensas. Kempers citou o histórico de Petrópolis, na região serrana, classificando o município entre as localidades de maior risco geológico e lembrando do desastre ocorrido em 2022, quando choveu 550mm em 24 horas. Na época, 242 pessoas morreram.

“Quando digo este número, não estou dizendo que essa área de risco não possa ser mitigada. Não estou dizendo que ela é inviável. Mas temos que pensar em ações, assim como em outros países, como o Chile que pensa em vulcão, terremoto. Ter o risco não significa que é inviável e, sim, que se pode trabalhar na prevenção, na preparação e na mitigação. Quanto mais se reduz a vulnerabilidade, maior é a suscetibilidade para que os municípios e a população se sintam confortáveis para atuar ou para conviver numa localidade que é vulnerável”, afirmou.

Kempers também abordou o cenário de seca e de estiagem neste segundo semestre por conta da redução do volume dos rios, pelo aumento do risco de incêndios florestais e que podem causar problemas respiratórios na população. Ele destacou o impacto direto na infraestrutura de energia e na operação industrial, citando o paradoxo entre água e energia: a elevação das temperaturas aumenta a demanda por energia elétrica (ar-condicionado e refrigeração) em um período de menor vazão hídrica, podendo pressionar o sistema e exigir o acionamento de usinas termelétricas, o que encarece o custo produtivo.

O especialista defendeu a integração legislativa entre a Lei Federal de Proteção e Defesa Civil (Lei nº 12.608/2012) e a Lei de Adaptação às Mudanças Climáticas (Lei nº 14.904/2024), enfatizando que a prevenção deve ser encarada pelo setor produtivo e pela administração pública como investimento, e não como custo.

A presidente do Conselho ESG reforçou o papel da Firjan em atuar como articuladora entre a indústria, o poder público, especialistas e demais atores da sociedade para transformar conhecimento técnico e informações climáticas em planejamento, prevenção e ações concretas.

“O debate não se limita aos impactos diretos sobre o setor industrial. A exposição climática tem de ser analisada de uma forma sistêmica e integrada, tem que considerar toda a cadeia de valor: fornecedores, transportadoras, toda a infraestrutura, os trabalhadores, as comunidades dos territórios onde empresas estão inseridas. Trabalhar a antecipação de riscos e o fortalecimento da capacidade de resposta é uma agenda de competitividade, segurança operacional e sustentabilidade”, finalizou.

 
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