Com o objetivo de incentivar a cooperação internacional no contexto da descarbonização das atividades industriais, o Orange Dialogues focou no papel do hidrogênio de baixo carbono como vetor essencial para reduzir as emissões de carbono. Este encontro ocorreu na Casa Firjan, no Rio, nesta quarta-feira (1/7).
Promovido pelo corpo diplomático dos Países Baixos no Brasil, o evento ocorreu no âmbito das iniciativas que celebram os 200 anos de relações diplomáticas entre os dois países. O encontro contou com o apoio institucional da Firjan e reuniu especialistas, representantes da indústria, da academia e profissionais do mercado de energia.
Em suas palavras de abertura, o vice-presidente da Firjan CIRJ e presidente do Conselho Empresarial de Relações Internacionais, Rodrigo Santiago, destacou a parceria histórica com o Consulado Geral dos Países Baixos, relembrando ações conjuntas anteriores no âmbito da Economia Circular. Representando o presidente Luiz Césio Caetano no evento, ele ressaltou a importância de o país acelerar sua agenda para a descarbonização para não perder oportunidades de mercado.
“Nós temos energia. Energia barata e renovável. Nós temos como avançar em indústrias descarbonizáveis", afirmou Santiago, apontando o hidrogênio de baixo carbono como um dos principais atores desse movimento para uma transição energética justa e sustentável. O executivo também enfatizou a relevância de discutir esses temas na Firjan, com foco em setores hard-to-abate (de difícil descarbonização), como prioridade para a indústria fluminense e também a brasileira.
O cônsul-geral dos Países Baixos no Rio de Janeiro, Job Runhaar, contextualizou o evento com um marco histórico, lembrando que o primeiro cônsul holandês chegou ao Rio de Janeiro, em 1826, em um navio à vela, acrescentando de forma bem-humorada, como um pioneiro ‘amigo do clima’.
Runhaar explicou que a parceria bilateral evoluiu para além dos vínculos políticos e comerciais, abrangendo hoje áreas como sustentabilidade e transição energética. Segundo ele, o Orange Dialogues nasceu no ano passado justamente para promover o diálogo técnico e ações concretas entre as duas nações. “Quero reforçar que os Países Baixos veem o Brasil como parceiro estratégico insubstituível na transição energética global e que eventos como este são a prova de que esta parceria tem substância”, salientou.
Cenário nos Países Baixos
Em sua palestra introdutória, Steef Kalsbeek, gerente de projetos internacionais de hidrogênio da Groenvermogen NL - programa holandês voltado ao desenvolvimento da capacidade verde da economia e da sociedade dos Países Baixos, com orçamento total de 838 milhões de euros -, apresentou o cenário, os investimentos e as ações da instituição, bem como o papel do Brasil nesse contexto.
Kalsbeek apresentou um panorama detalhado sobre o ecossistema de hidrogênio nos Países Baixos, dividindo as iniciativas em pilares de pesquisa e desenvolvimento, projetos-piloto e investimentos, apontando oportunidades tanto para o desenvolvimento de engenharia quanto para a cadeia de suprimentos global.
“Há uma parte para os estudos de viabilidade e engenharia de projetos de hidrogênio. Este já está funcionando desde o início e ainda há algum orçamento disponível para este ano. E também há outro instrumento de subsídio que apoia a indústria de manufatura para o hidrogênio. Portanto, se você deseja desenvolver componentes de hidrogênio ou sistemas de eletrolisadores de hidrogênio, também há um instrumento de financiamento disponível que pode fornecer um subsídio total para esse tipo de atividade”, explicou.
O executivo citou o caso da SkyNRG, sediada em Amsterdã, pioneira e líder global no fornecimento e desenvolvimento de Combustível de Aviação Sustentável (SAF). Segundo ele, a empresa recebeu, recentemente, 1,9 milhão de euros de subsídio para realizar um estudo de engenharia para a sua usina de e-SA. “A ideia é que se possa usar tanto bio-metanol quanto e-metanol nesta instalação. Para este projeto específico, será um local de 10 toneladas por dia, mas eles também têm o plano de expandi-lo para 100 toneladas por dia quando for bem-sucedido", contou.
Brasil como protagonista
O especialista contextualizou que os Países Baixos possuem uma posição estratégica como polo de hidrogênio na Europa devido à infraestrutura portuária integrada e à rede de transporte nacional. No entanto, o país enfrenta limitações físicas, tais como a capacidade doméstica restrita para gerar energia renovável e a escassez de gás carbônico biogênico para a produção de novos produtos químicos sustentáveis.
Assim, para ele, é justamente nesse cenário que a cooperação com o Brasil se torna fundamental, dadas as suas vantagens competitivas naturais. “Vocês têm elétrons renováveis abundantes e de baixo custo e têm as condições favoráveis para se tornarem um país com custo nivelado competitivo de hidrogênio”, acrescentou.
Kalsbeek acrescentou que o Brasil se destaca pela bioindústria altamente desenvolvida e por possuir fontes de gás carbônico biogênico de alta pureza originadas da produção de etanol, onde a concentração atinge 95%, facilitando e reduzindo os custos de captura em comparação com os métodos europeus. Ele citou exemplos práticos de colaboração já existentes, como a parceria de Porto Verde no Porto de Pecém, Ceará, na qual o Porto de Roterdã detém 30% de participação, e o desenvolvimento de projetos de larga escala para hidrogênio verde e amônia verde no Piauí.
O encerramento das discussões da manhã se deu com o painel principal, dedicado a debater o desenvolvimento de cadeias de valor integradas, infraestrutura para projetos power-to-X, escalabilidade e mecanismos de mobilização de capital público e privado. O debate foi moderado por Thiago Valejo, gerente de projetos de petróleo, gás, energias e naval da Firjan SENAI SESI. “Acredito que é importante avançarmos na regulamentação do hidrogênio e proporcionar condições para fazer essa indústria se desenvolver para além dos projetos que já estão acontecendo”, disse.
O debate contou com a participação de Fernanda Delgado, CEO da Associação Brasileira da Indústria do Hidrogênio Verde (ABIHV); Paulo Emílio de Miranda, presidente da Associação Brasileira do Hidrogênio (ABH2); Paulo Resende, gerente de transição energética da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep); e Luiz Viga, diretor da Fortescue do Brasil.
O evento contou ainda com o painel de encerramento, “Estudo de caso internacional - Biomassa, biocombustíveis: inovação e escalabilidade industrial”, apresentado por Eduardo da Rosa Silva, gestor de Desenvolvimento de Negócios da TNO, organização independente de pesquisa sem fins lucrativos.