O Conselho Empresarial de Relações Internacionais da Firjan realizou, nesta quarta-feira (6/4), um painel sobre geopolítica global e cenários para o comércio em 2026. Na abertura, o presidente do Conselho, Rodrigo Santiago, destacou o papel da federação em aproximar empresários fluminenses de discussões estratégicas globais: “Nosso objetivo é oferecer aos industriários e empreendedores do Rio de Janeiro uma visão clara dos desafios e oportunidades que se desenham no comércio internacional. O cenário atual exige adaptação rápida e inteligência estratégica.”
Bruna Santos, diretora do Brazil Program no Interamerican Dialogue, destacou que o comércio internacional em 2026 está marcado por dois movimentos. Os Estados Unidos vêm aplicando tarifas sobre setores estratégicos como aço, alumínio e veículos. O chamado tarifaço pressiona, desta forma, diretamente a competitividade de países emergentes, como o Brasil, e cria incertezas para empresas que dependem do mercado norte-americano.
De outro lado, o Acordo Mercosul-União Europeia, que entrou em vigor provisoriamente no dia 1/5, abre uma nova frente de oportunidades. Para o Brasil, significa maior acesso ao mercado europeu, mas também exige adaptação regulatória e investimentos em inovação. “O desafio é equilibrar esses movimentos, aproveitando o acesso ampliado ao mercado europeu sem perder de vista os riscos do protecionismo americano”, afirmou Bruna Santos.
Tensões globais e oportunidades para o Brasil
Jana Nelson, responsável pela América Latina no Tony Blair Institute for Global Change e ex-subsecretária de Defesa dos Estados Unidos para o Hemisfério Ocidental, apresentou sua análise conectando os conflitos internacionais às dinâmicas comerciais. Ela destacou que o governo dos Estados Unidos tem buscado manter vantagem estratégica em negociações, inclusive em cenários de conflitos recentes. Essa postura unilateral afeta diretamente a estabilidade dos preços do petróleo e a logística global.
Para o Brasil, esse contexto é ambíguo: há riscos de exposição às instabilidades internacionais, mas também oportunidades de se consolidar como fornecedor confiável de alimentos e energia limpa. Jana Nelson lembrou que países como os Emirados Árabes já ampliaram compras de aeronaves brasileiras, mostrando como a indústria nacional pode se posicionar neste momento de reconfiguração geopolítica.
“Para o Brasil, há oportunidades ligadas à exportação de alimentos e energia limpa, mas também riscos de exposição às instabilidades internacionais. A indústria brasileira precisa se posicionar como fornecedora confiável em meio a esse cenário de incerteza”, destaca.
No momento dedicado à interação com os participantes, Bruna Santos foi questionada sobre a questão tributária e lembrou que, mesmo com mudanças políticas nos Estados Unidos, não há expectativa de reversão rápida das tarifas. Segundo ela, essas medidas são vistas como instrumento estratégico e dificilmente serão abandonadas, independentemente da administração em Washington.
Uma das questões debatidas foi sobre o impacto do preço do petróleo. Jana Nelson explicou que, apesar das tensões no Oriente Médio, o governo estadunidense considera os efeitos econômicos administráveis internamente. Para o Brasil, a volatilidade do petróleo pode abrir espaço para reforçar sua posição como fornecedor de energia alternativa e sustentável, conforme destacaram as duas especialistas. Ambas também convergem sobre a importância da participação do Brasil em temas de diplomacia comercial e da diversificação de mercados.