Ela é uma referência na luta pelos direitos das mulheres no Brasil. Advogada, professora universitária, jornalista e escritora, nascida no Rio de Janeiro, é autora de “Reengenharia do Tempo”. Rosiska Darcy de Oliveira é uma intelectual que faz parte do seleto grupo da Academia Brasileira de Letras (ABL). Ao refletir sobre o mundo empresarial, no lançamento do Conselho Firjan de Mulheres, na Casa Firjan, falou da sua trajetória, desde quando, em 1995, cochefiou a delegação brasileira na Conferência Mundial sobre a Mulher, em Beijing, na China. Também foi presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, no governo de Fernando Henrique Cardoso e criou, no Rio de Janeiro, o Centro de Liderança da Mulher. Maiúscula nas palavras, busca o tom certo ao opinar sobre a posição da mulher na contemporaneidade e concede esta entrevista exclusiva à Carta da Indústria.
CI: Qual sua opinião sobre o debate em torno da posição da mulher na indústria fluminense?
Rosiska Darcy: Acho promissor fazer esse debate. “Um conselho dado às mulheres” seria um título provocativo. Um conselho não é dado para ninguém. Esse Conselho Firjan de Mulheres foi conquistado após mais de um século de luta pela igualdade de gênero. Com o trabalho do Conselho, será possível escrever uma história que vai ajudar imensamente a dar respostas a uma série de questões. Fiz parte de uma trajetória ao integrar a delegação brasileira na Conferência Mundial sobre a Mulher, da Organização das Nações Unidas (ONU), na China. A primeira luta da mulher foi por visibilidade, pois existe uma ordem cultural que nos desfavorece e não nos permite crescer. Toda a luta foi para sair dessa invisibilidade. O problema central e dramático na nossa sociedade é o reconhecimento da mulher, porque ela está nessa corrida com uma bola de ferro nos pés. É um impedimento real e concreto na vida privada da mulher. Existe um nó nessa questão. A mulher tem um princípio de realidade que ela não dá conta. A responsabilidade dela ultrapassa as 24 horas diárias e transborda. A própria legislação brasileira reconhece a igualdade em direitos e obrigações entre homens e mulheres. Mas o caminho é ainda a correção por essa igualdade. Só assim vamos obter mulheres empreendedoras, estimulando a autoconfiança e oferecendo condições favoráveis para que elas tenham coragem de empreender.
CI: De que forma o Conselho pode contribuir para a evolução dessa temática?
Rosiska Darcy: É sempre importante ter uma parte institucional – como a criação do Conselho Firjan de Mulheres – para impulsionar ações, palestras e debates nesse contexto, que possam fazer propostas em torno da igualdade, tendo uma função de conselho consultivo. A Firjan precisava criar esse conselho como elemento civilizatório. Sair desse atraso para garantir que a sociedade fique de pé. Não há marcas nos livros civilizatórios sobre a mulher. Isso é invisibilidade. Portanto, quebrar esse paradigma, com ações concretas, poderá ser um dos objetivos.
CI: Quais os desafios que a mulher tem de enfrentar para se inserir no mundo corporativo?
Rosiska Darcy: São vários os desafios. Alguns dependem dela; outros, não. Dela dependem a autoestima e a capacidade de iniciativa; a não aceitação das discriminações e de regras que sejam incompatíveis com sua condição de mulher. Ela tem de estar consciente disso até para poder fazer sugestões de mudanças. Uma delas é, certamente, o uso do tempo, ou seja, uma compatibilização entre a vida profissional e o mundo do trabalho e a vida privada. A sociedade jogou para a vida privada a solução dessa compatibilização difícil. Não é uma tarefa tão fácil. Esse não é um problema da vida privada – é um problema da junção entre o mundo do trabalho e a vida privada. É preciso reconhecer o valor social e econômico da vida privada e, a partir daí, reestruturar o mercado de trabalho, de maneira que isso seja levado em consideração e desafogue as mulheres. Tirar das mulheres o peso imenso que representa para elas, hoje, carregar a família sozinha e se multiplicar por mil, ou seja, acrescentar a ela a vida privada.
CI: Levantamento feito pela Firjan evidencia que as mulheres ainda ocupam poucos cargos na presidência de conselhos de administração. A participação delas no mercado de trabalho está avançando, mas a presença majoritária de homens na liderança das empresas compromete ainda a escolha de funcionárias para o alto escalão. Como a senhora avalia esse cenário?
Rosiska Darcy: É um problema grave e sério. Uma visão muito negativa. Uma das funções do Conselho Firjan de Mulheres, em minha opinião, é chamar atenção e insistir para que essa deformação seja corrigida. Porque, quanto menos mulheres estiverem em postos de comando, haverá menos possibilidades de se resolverem os problemas das mulheres. A presença das mulheres nem sempre costuma ser uma garantia de que essas questões sejam equacionadas. A pirâmide brasileira – numa base social – é, sim, formada por mulheres, seus filhos, avós e netos. Existe essa autoridade moral que as mulheres exercem na família no nosso país. Reconheceu-se essa construção. Entretanto, não foi estendida às estruturas da sociedade. Muitas empresas não dispõem dessas estruturas que possibilitem – na vida real – a ascensão das mulheres. Além da visibilidade, como tornar isso possível fazendo uma análise das estruturas sociais, as quais, nos países desenvolvidos, permitem que as mulheres alcancem posições de liderança nas empresas.
CI: As mudanças estão ocorrendo na velocidade adequada?
Rosiska Darcy: Muito lentamente. Existem barreiras concretas. Busco fundamentos para criar soluções. A maneira como uma mulher é tratada é uma doença na sociedade. Não existe uma empresa saudável em uma sociedade doente. Há uma distorção, e devemos centrar nossa luta na mudança de mentalidade, buscando soluções que resumiria em três pontos: na visibilidade da mulher, no reconhecimento de que o mundo é formado por mulheres e homens; na prática de ações afirmativas com a ressalva de que essas ações não sejam quebra de meritocracia. Quem assumiria os riscos? Divido entre o Estado e as empresas.
CI: Como a senhora enxerga a resistência com relação às mudanças?
Rosiska Darcy: Essa resistência provém de um medo do que esse empoderamento das mulheres possa representar. Esse não é um problema somente das empresas, mas da sociedade como um todo. A mudança do estatuto social das mulheres provocou, sem dúvida nenhuma, um sentimento, uma reação de autodefesa, de interesses que não são, necessariamente, os delas. Isso é consciente? Às vezes não é. O fato é que existe. Essa reação precisa ser: primeiro, chamada de problema; segundo, esse problema precisa ser esclarecido, discutido, apontado e trabalhado.
CI: Na sua percepção, as empresas dão a devida atenção ao tema na prática?
Rosiska Darcy: Acho que sim. Estão dando cada vez mais. Lentamente, para o meu gosto, mas estão dando. Há mudanças sensíveis. É isso que me dá esperança de que estamos no bom caminho. É isso que abre espaços. As mulheres entraram no mundo dos homens, a minha geração participou de uma verdadeira revolução, a revolução mais importante do século XX, que mudou a sociedade mundial e a sociedade brasileira. Houve uma imensa migração das mulheres da vida privada para o mundo do trabalho com consequentes possibilidades de afirmação, de automanutenção, de experiência intelectual, espiritual, mas, na essência, elas estão pagando muito caro, porque as mulheres fizeram essa migração para o mundo público sem negociar a vida privada. Não houve negociação na vida privada porque o ponto de partida foi da transgressão.
CI: A senhora acredita que uma liderança visível e comprometida é o fator mais importante para criar oportunidades iguais para talentos diversos no trabalho?
Rosiska Darcy: Reconhecer que as mulheres existem e têm uma função especial na sociedade é de extrema importância – ter em mente a vida real das mulheres e um olhar qualificado necessário para discutir o problema.
CI: A cultura reflete os comportamentos cotidianos de uma empresa em grande escala — e muitas organizações se assustam diante da perspectiva de promover mudanças nesse sentido. Exemplos vindos da liderança e comportamentos inclusivos no dia a dia da empresa como um todo poderiam mudar esse contexto?
Rosiska Darcy: Claramente. Começa a haver uma consciência de que não só essa é uma condição sine qua non numa sociedade moderna e, mais ainda, é de interesse das empresas. As empresas começam a perceber, não todas, talvez muito poucas, que o perfil de contemporaneidade, de modernidade, só faz criar uma marca mais confiável, uma marca mais moderna.
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