Com o objetivo de reunir atores da cadeia produtiva automotiva, a Firjan realizou, no dia 2/10, o 1º Encontro de Logística Reversa da Cadeia Automotiva (Auto 360). Na Casa Firjan, hub de inovação e tendências da federação, em Botafogo, representantes de montadoras, recicladoras e desmontadoras abordaram o tema “Inovação do berço ao berço: transformando inovação em nota fiscal”. O evento contou com parceria do SENAI Nacional, da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) e do Instituto Nacional de Tecnologia (INT).
Celso Mattos, vice-presidente da Firjan e presidente do Sindicato da Indústria de Reparação de Veículos e Acessórios do Estado do Rio de Janeiro (Sindirepa RJ) – representando o presidente da federação, Luiz Cesio Caetano –, abriu o evento destacando o papel da instituição em conectar os elos da cadeia automotiva, sobretudo na pauta ambiental. “Estamos diante de uma indústria em transformação: a eletrificação, a digitalização, os novos materiais, a inteligência aplicada aos processos produtivos e as exigências de sustentabilidade estão redefinindo a maneira como os veículos são projetados, fabricados, utilizados, reparados e, principalmente, reciclados”, disse.
Paulo Roberto Furio, gerente de Pesquisa e Desenvolvimento da Firjan SENAI SESI, enfatizou que a transição para uma economia mais circular vai além de um desafio ambiental. "É uma importante oportunidade para inovação, desenvolvimento tecnológico e geração de novos negócios. Eventos como o Auto 360 aproximam empresas, especialistas e centros de pesquisa, criando o ambiente necessário para transformar desafios da cadeia produtiva em oportunidades concretas de PD&I", comentou.
Inovação, soluções práticas e desafios
No encontro, os participantes debateram sobre iniciativas, desafios e oportunidades relacionados a temas como descarbonização, economia circular, políticas públicas, fomentos, legislação, tributos, rastreabilidade entre outros temas fundamentais para o fortalecimento do setor na busca de fomentar ações já existentes e prospectar projetos de sustentabilidade no estado. Também foram apresentadas as competências da rede de institutos de tecnologia e de inovação da Firjan SENAI SESI como também soluções desenvolvidas pelo Instituto SENAI de Inovação em Biossintéticos e Fibras, que vêm atuando em pesquisas práticas e contribuindo para o desenvolvimento da cadeia automotiva.
Júlio Luchesi, presidente da Associação Brasileira de Desmontagem Automotiva e Reciclagem (ABCAR), chamou a atenção para o perfil de atuação das empresas de desmonte, que atuam, em essência, como um mercado estratégico de abastecimento de peças.
“Há confusão quando se fala de reciclagem automotiva. Na reciclagem, pensa-se nos materiais a serem usados para outros tipos de utilização. O alumínio e o ferro são reciclados e se transformam em outra coisa. Já a desmontagem veicular é diferente. Recuperam-se as peças, que são recolocadas no mercado para atender a uma demanda por uma falha de reposição do mercado. Recuperamos as peças e as colocamos no mercado, evitando novos processos extrativos e fabris de alta emissão de carbono”, analisou.
Apesar do impacto econômico e ambiental positivo, Luchesi expôs entraves sistêmicos que travam a escala do setor: a falta de um Código da Classificação Nacional de Atividades (CNAE) industrial próprio (indústria da desconstrução), a inexistência de uma base de dados centralizada entre os 27 Detrans do país, o Judiciário e as forças de segurança, além do preconceito do público e da pesada carga tributária do Simples Nacional sobre o faturamento bruto, que impede o reinvestimento e a expansão das empresas.
Carlos Sakuramoto, representante da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), destacou a morosidade e a burocracia enfrentadas no diálogo com matrizes multinacionais para a consolidação de acordos de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). “Nos últimos dez anos, nós melhoramos em produtividade 30% com altos investimentos em tecnologia, pesquisa e desenvolvimento. Só que, nesses últimos dez anos, nós tivemos uma inflação de 65%, que engoliu todo o nosso investimento em produtividade”, contextualizou.
Martin Sirot, responsável por manufatura e economia circular da Stellantis na América do Sul, apontou que a cadeia de plásticos e tecidos automotivos ainda enfrenta barreiras logísticas de volume e triagem. “O desafio de identificar e segregar esses plásticos, além de desenvolver essa cadeia, ainda nos distancia de torná-la uma realidade. Hoje há uma cadeia de reciclagem boa de plásticos, mas ainda não na cadeia automotiva”, apontou.
Sirot explicou que, apesar de a Stellantis manter um centro piloto de desmontagem no Sasso focado na separação técnica, a rigidez de homologação das montadoras e os riscos de contaminação inviabilizam o retorno direto desses plásticos reciclados para a fabricação de novos veículos.
Descarbonização e futuro do setor
A temática do Auto 360 foi de grande importância diante de uma das pautas mundiais mais discutidas: reuso e reciclagem para descarbonização. No setor automotivo, de acordo com a ABCAR, a estimativa é que, dos cerca de dois milhões de veículos que chegam ao fim da vida por ano no país, apenas 1,5% teria hoje destinação adequada. Outro dado da associação aponta que R$ 14 bilhões em peças recuperáveis ficam pelo caminho.
O setor também está focado nos impactos da transição energética por conta do crescimento da frota veicular elétrica no Brasil. Conforme dados recentes da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), um milhão de unidades estão em circulação no país e respondem por 24,5% dos licenciamentos de veículos novos entre janeiro e agosto deste ano.
Neste cenário há também exigências obrigatórias de eficiência energética e baixa emissão de poluentes, medindo o impacto ambiental do veículo desde a extração de matérias-primas até o uso (conceito ‘do berço ao túmulo’). Em 2024, foi lançado o Programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover), uma política industrial do setor automotivo brasileiro que substituiu o programa Rota 2030 para estimular a descarbonização e a inovação tecnológica. Além da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), com diretrizes que exigem a medição da pegada de carbono no ciclo de vida completo do veículo com metas.