Você acredita ser bom ou ruim em Matemática?

Você acredita ser bom ou ruim em Matemática?

 

 

A Matemática pode gerar certa apreensão entre garotos e garotas de maneira geral, mas quando se trata de se autoavaliar em termos de habilidades matemáticas, elas tendem a se menosprezar e eles, a ser mais autoconfiantes. Essa visão equivocada da própria capacidade gera diversos malefícios, podendo influenciar de forma indevida até mesmo a carreira que as meninas virão a seguir na vida. Essa é uma das conclusões do estudo realizado pela Universidade do Estado da Flórida. Leia, abaixo, a reportagem na íntegra:

 

 

Desafio: o nível de confiança das meninas, e não sua habilidade matemática, dificulta o caminho delas para a diplomação em ciências

Quando se trata de Matemática, garotas classificam suas habilidades notadamente de forma mais baixa que os garotos. Mesmo quando não há diferença observável entre ambos, de acordo com pesquisadores da Universidade do Estado da Flórida.

“Continua-se argumentando que as diferenças de gênero nas ciências ‘duras’ têm tudo a ver com habilidade”, disse Lara Perez-Felkner, professora assistente de educação superior e Sociologia na Faculdade de Educação. “Mas quando mantemos constantes as notas em testes matemáticos, efetivamente tirando-as da equação, vemos que meninos ainda classificam suas habilidades de forma mais alta, e que as meninas as classificam de forma mais baixa”.

Perez-Felkner é a principal autora de um estudo publicado hoje no jornal “Fronteiras na Psicologia”. As estudantes de doutorado Samantha Nix e Kirby Thomas são as coautoras do estudo.

A equipe de pesquisadoras descobriu que esses gaps de percepção são ainda maiores nos níveis mais altos de habilidades matemáticas – entre aqueles estudantes com mais talento e potencial na área. Meninos são significativamente mais confiantes em contextos matemáticos desafiadores do que meninas igualmente talentosas. Especificamente, os meninos classificaram sua habilidade 27% a mais do que as meninas.

A habilidade percebida foi medida usando-se um estudo longitudinal nacionalmente representativo, que acompanhou estudantes do primeiro ano do ensino médio durante um período de seis anos, até dois anos após o ensino médio. Uma série de questões nas pesquisas com alunos do primeiro e do terceiro anos pediram aos estudantes para indicar o seu nível de concordância com afirmações do tipo “Tenho certeza de que posso compreender o conteúdo mais difícil apresentado em textos matemáticos”.

“Isso é importante porque esses níveis de confiança influenciam os cursos de Matemática e Ciências que os alunos irão escolher mais tarde”, disse Perez-Felkner. “Isso influencia a escolha ou não de universidades que são mais fortes em certas graduações. Isso também influencia a carreira que tentarão seguir, que escolhem e que continuam a estudar”.

Essas conclusões sobre crenças percebidas a respeito das habilidades se dirigem a quem se encontra no momento crítico em que jovens mulheres mais talentosas tendem a abandonar o caminho rumo a carreiras científicas predominantemente masculinas, durante o ensino médio e a faculdade.

Ao longo das últimas décadas, no mundo todo, a quantidade de mulheres tem ultrapassado a de homens matriculados e formados em universidades. Ainda assim, mulheres continuam sem estarem devidamente representadas em Física, Engenharia, Matemática e Ciências da Computação (sigla PEMC, em inglês). Na verdade, mulheres deverão ser cerca de 60% dos alunos universitários em 2025, mas ser minoria a se graduar nessas disciplinas.

Perez-Felkner e colegas argumentam que as diferenças de gênero a respeito da confiança que se tem nas habilidades matemáticas em contextos desafiadores têm consequências consideráveis no longo prazo. Disparidades de gênero na escolha da faculdade estão associadas às diferenças de remuneração entre homens e mulheres, bem como à grande falta de talento científico em algumas das áreas em maior crescimento da nossa economia científica global.

As autoras observam que meninos são encorajados, desde cedo, a buscar desafios – incluindo o risco do fracasso –, enquanto meninas tendem a perseguir a perfeição, julgando a si mesmas e sendo julgadas por padrões mais restritivos, reforçados pela mídia e a sociedade em geral.

Nos ensinos fundamental e médio, aumentar as oportunidades com acampamentos científicos tipo SciGirls, recrutar meninas para participar de cursos científicos de alto nível ou atividades extracurriculares, viabilizar aprendizados científicos informais e dar maior visibilidade e acesso a mulheres cientistas são outros métodos para manter o interesse das garotas e seu engajamento nas áreas da chamada “ciência dura”.

O aumento do acesso a cursos avançados de Ciências, no ensino médio e nos primeiros anos seguintes, pode melhorar as chances de estudantes – notadamente mulheres – ingressarem nessas áreas.

Outros resultados incluem:
• Mulheres têm 4,7% de chance de escolher uma carreira PEMC, enquanto homens têm 14,9%.
• Garotas no terceiro ano do ensino médio com percepções mais negativas têm 1,8% de chance de escolher uma carreira PEMC, enquanto garotas com percepções mais positivas sobre suas habilidades num contexto desafiador têm 5,6% de chance de escolher uma carreira PEMC.
• Garotos têm 19,1% de chance de escolher uma carreira PEMC se suas percepções forem positivas, e se forem negativas essas chances caem para 6,7%.
• Garotos são mais propensos do que garotas a manter uma mentalidade de crescimento, ou seja, a percepção de que a habilidade matemática pode ser desenvolvida pelo aprendizado, em vez de ser um talento fixo com o qual a pessoa nasce.
• Habilidades matemáticas do primeiro ano do ensino médio determinaram mais se os alunos permaneceriam ou não com as ciências naturais no ensino superior.
• A percepção das habilidades matemáticas no terceiro ano do ensino médio foi certamente associada a uma mudança para as carreiras voltadas às ciências naturais, entre estudantes que inicialmente não pretendiam seguir tais carreiras.

Fonte: Florida State University